Crítica

Y: O Último Homem esnoba HQs e atualiza discussões de gênero

Os três primeiros episódios da série adaptada dos quadrinhos foram lançados hoje no Star Plus, mudando o cânone.

13 de setembro de 2021

Quando nossa realidade margeia distopias, novos produtos ficcionais anseiam roubar a sua atenção. Fãs de séries podem lembrar da excelente The Leftovers, onde 2% da população some sem maiores explicações. O Apocalipse, filme de 2014, tem como base livros bíblicos, também girando em torno de desaparecimentos. Quem está por dentro das adaptações de quadrinhos (e blockbusters) conhece o desastre nos dois últimos filmes dos Vingadores: em um estalar de dedos, metade da população vira poeira. 

Cada obra se esforça para ter sua enigmática justificativa para sumir com pessoas, mas todos caem na vala comum de mistérios, diversas perspectivas e atalhos para amarrar as tramas. De certa forma, é isso que vemos em Y: O Último Homem.

Na série acompanhamos Yorick, sobrevivente a um inexplicável evento onde todos os homens com cromossomo Y morrem.


Produzida pelo canal FX e pelo streaming Hulu, a série chega ao Brasil pelo recém-lançado serviço Star Plus, da Disney. Sua inspiração é a história em quadrinhos homônima, criada por Brian K. Vaughan – dos quadrinhos Saga e Paper Girls.

Desta vez, quem está no comando da adaptação é uma mulher: Eliza Clark, responsável por produzir e (parcialmente) roteirizar todos os episódios desta primeira temporada. Ao total serão 10, todos dirigidos por mulheres – Y não tem segunda temporada confirmada, mas ao ritmo do que foi adaptado, parece que será necessário. Clark teve “bênção” de Vaughan, mas em entrevistas chegou a comentar que a HQ “é um meio por si só; não um modelo para televisão” pegar e adaptar.

Pudemos assistir aos três primeiros episódios da série, que foram ao ar hoje, e te contamos se vale a pena arriscar mais uma “versão” do fim do mundo.

Há (quase) duas décadas…

Neste mês a HQ completa exatos 19 anos, com o lançamento nos EUA do volume número 1 em setembro de 2002. Y durou quase seis anos, totalizando 60 volumes para chegar ao fim. Todos foram lançados pela Vertigo, selo adulto da DC Comics, dos populares quadrinhos Watchmen e Sandman

O último homem, Yorick Brown, é um escapista que cuida de seu macaco Ampersand (o nome do símbolo “&”). Depois do desastre, ele junta-se à Agente 355, que trabalha para o governo americano, junto da doutora Allison Mann. Ao decorrer das edições vemos Yorick escapar de problemas com a mesma facilidade que escapa de algemas.

(Divulgação/Vertigo)

Os tempos mudaram e a série (felizmente) deixa de lado muito do que aparece nas HQs. As páginas de Último Homem abordavam temas políticos, faziam críticas sutis e deixavam comentários explícitos para construir aquela realidade alternativa. No entanto, discussões de identidade de gênero ficavam de fora. Ao longo das páginas há certos termos pejorativos, inclusive tratando-se de transgêneros (no original, o ofensivo tranny). Junto disso temos corpos sangrentos, mortes chocantes e violência explícita, conteúdos intragáveis e exagerados caso fossem representados com atores de carne e osso.

Clonagem, mutação e demais temas científicos também estão presentes desde o começo da HQ, mas a FX/Hulu resolveu pegar o conceito básico deste mundo e mudou quase tudo o que os leitores têm como verdade.

Mudanças são necessárias

Ben Schnetzer interpreta Yorick Brown (Divulgação/Hulu)

Desde as cenas de introdução de cada protagonista, Y mostra que pretende alterar o cânone. No quadrinho, por exemplo, há contagem regressiva do tempo para o “marco” (o momento exato da morte dos homens), mas a enrola com isso. O que acontece em 20 páginas é esticado para 50 minutos do primeiro episódio. É muita incoerência, pois no programa existe mais espaço para explorar as perspectivas de cada mulher, em um tempo mal aproveitado.

Trazendo os personagens das páginas de quadrinhos à vida, temos as atuações de Ben Schnetzer (A Menina que Roubava Livros), Diane Lane (de Infidelidade e Liga da Justiça), Olivia Thirlby (Juno) e Ashley Romans (Shameless). São rostos conhecidos e nomes esquecíveis, mas bons atores como um todo.

O Último Homem se esforça para não virar uma série de televisão tradicional, mas cai no mesmo grande erro de várias: dividir cenas intercalando tempo de tela com personagens que não importam. Dar tempo a pessoas cujo único propósito é serem incômodas (e não antagonistas) foi outra escolha equivocada.

Yorick em meio ao caos (Divulgação/Hulu)

A abordagem de gêneros, ao menos, na série é muito melhor do que na HQ. O cromossomo Y vira só uma formalidade, um mero detalhe que não significa “ser homem”. Y, a série, tem total “comprometimento a fazer a coisa certa para transgêneros e não-binários”, como bem colocado pelo Deadline. Inclusive, em uma entrevista ao veículo, Elliot Fletcher, homem trans que interpreta o personagem Sam Jordan (original da série) conta que se sentiu confortável ao “entrar em um projeto que sabia disso”, mergulhando em sua atuação.

Hero Brown, interpretada por Olivia Thirlby (Divulgação/Hulu)

O Último Homem estreia com três primeiros episódios liberados. Vejo como ponto positivo, pois todos os ganchos e a trama conspiratória aumentam a expectativa de quem irá religiosamente assisti-la às segundas-feiras. Além disso, se considerarmos que o episódio piloto conta o que todos já sabem, nada mais justo que termos três de uma vez.

A série tende a melhorar com o decorrer da temporada. Mas seriam necessários 10 episódios para termos um material de alta qualidade, em termos de roteiro? Talvez. De qualquer maneira, Y: O Último Homem é só a última das séries de distopia. Está longe de ser uma das piores, mas ainda precisa de muito até se tornar “boa”. Ficamos no aguardo de melhorias até a conclusão desta primeira temporada.

Y: O Último Homem estreia nesta segunda-feira (13) com os três primeiros episódios no Star+.